Dia dos Pais Brüder

Me lembro perfeitamente a primeira vez que cheguei em casa com uma cerveja caseira que havia feito. Coloquei pra gelar e depois de um tempo chamei meu pai pra provar.
Ele sequer sabia que eu fazia cerveja em casa. É que quando eu e meus amigos começamos, não falávamos pra ninguém. Era segredo. Tratava se de uma stout, cerveja escura, mais alcoólica do que as que ele era acostumado. E bem diferente das cervejas “escuras” que ele bebia raramente.
Ele provou e disse: “É forte né rapaz… E é boa”. Não fez perguntas, não rendeu conversa. Ele era assim.
E a cada cerveja que eu trazia, ele esboçava curiosidade. Minha mãe não gostava da ideia. E toda vez que ia sair pra assuntos de cerveja, ele soltava: ” Ele lá vai pra cerveja.”
Nessa época eu fazia faculdade de Historia na Unileste e tinha uma bolsa de Iniciação Cientifica pela FAPEMIG. Ou seja, a rotina de estudar e transcrever entrevistas no computador dividia espaço com estudos cervejeiros.
Meu pai não chegou a conhecer a fábrica. Mas via as fotos e ficava encantado. Até o dia que levamos um barril de Pilsen pra casa.
Muitas tardes eu saia e voltava apenas na hora de ir pra faculdade, ou saia da faculdade e virava noite engarrafando ou fazendo cerveja na casa dos amigos. Até que aquele hobby virou profissão.
Só quem conheceu meu pai pode entender. Melhor, só quem é da família.
Hoje a cada medalha que recebemos, cada premiação, me lembro dele acompanhando aquela caneca encher. Encantado com a chopeira na varanda da sua casa, pegou a caneca e deu uma golada, olhou a cerveja e disse: “essa até parece cerveja”. Rimos e abraçamos ele, que estava eufórico.
Pai sempre tentava não demonstrar tanta emoção, mas pra certas coisa ele era como eu, e os olhos molhavam facilmente.
Ele nunca precisou me dizer se curtia o fato de ter um filho cervejeiro, se dava à ele algum orgulho. Nunca esperei dele, mas sempre foi marcante pra mim ver ele bebendo.
De todas as memórias que tenho, as melhores, sem dúvidas, são aquelas em que aparecemos bebendo cerveja juntos.
Sempre fui sonhador quando se trata de cerveja. Ver fotos em que meu pai aparece empunhando uma caneca sempre empolga tanto quanto ver grandes juízes ou especialistas bebendo nossas cervejas.

A relevância do copo na experiência da degustação cervejeira

Não gosto de afirmar que para cada cerveja existe um copo – até porque isso não é totalmente verdade -, nem tampouco sou adepto daquela postura cervochata de que “se não tiver AQUELE copo pra beber AQUELA cerveja” não vale a pena tomá-la. Sinceramente, o líquido é sagrado, ele é que importa afinal, não é mesmo? O cara que gosta de cerveja vai beber até no bico se não tiver copo. E ela vai ser deliciosa e vai manter as mesmas características, independente do recipiente responsável por transportá-la à boca do sujeito.

O que muda ao usar o copo adequado é a experiência da degustação. Você poderá observar o aspecto e sentir o aroma do estilo e do tipo da cerveja destinada àquele recipiente da melhor forma para suas características.

O que não pode acontecer nunca é um copo sujo, mal lavado, engordurado e com odores. Isso sim atrapalha e muito! A gordura atrapalha a espuma e influencia no aroma. Quer saber uma prática péssima para a experiência cervejeira? Lavar o copo e deixar de boca pra baixo na bancada da cozinha, abafado. Deixa um cheiro ruim e se você colocar uma cerveja mais leve nele vai até achar que está estragada!

Bom, dito isso, vou mais ou menos exemplificar aqui quais são os copos existentes hoje e a quais tipos de cervejas são destinados. Ah, vou incluir aqui um comentário sobre alguns recipientes adequados aos momentos e o que acontece com a experiência.

Caldereta

caldereta

Se você não tem diversos tipos de copo em casa, pelo menos deste você precisa, porque é um formato que atende a experiência de degustação de cervejas em geral. Ideal para English e American Ales e também para algumas lagers escuras e IPAs.

Tulipa que se chamava Pilsner, que não era Lager, que então servia chope

Aqui no Brasil os copos tulipa, pilsner e lager são confundidos uns com os outros. O nome “tulipa” é usado para o formato que seria corretamente denominado de Pilsner. Esse por sua vez é confundido com o Lager, comum de se servir chope. Mas o tulipa na verdade é parecido com uma taça de conhaque com a boca um pouco mais aberta. Ou, naturalmente, se parece com a flor que lhe empresta o nome.

Confuso? Confira na imagem:

copos-para-cerveja

A tulipa é usada para cervejas como a Duvel e outras Strong Ales belgas. Isso porque nele você observa a evolução da espuma dessas cervejas que são bastante cremosas.

O Pilsner é para cervejas do tipo Pilsen. Deixa formar creme e leva o aroma do lúpulo para ser sentido. Já o Lager é o tradicional copo de chope (também leva o nome de Chopp), que permite o colarinho formado na chopeira.

Caneca

caneca

Feita para servir chope ou cervejas na pressão.

Mass

mass

É o tradicional canecão alemão de 1 litro, também chamado Seidel. Tem esse nome justamente porque não foi criado no Brasil. Com certeza teríamos trocado o S por I… E é justamente pela quantidade de líquido que ele é famoso.

Weizen

weizen

Nesse copo o próprio nome remete à cerveja ideal: de trigo. Mas é um copo desses indispensáveis para a experiência, porque permite colocar todo conteúdo das garrafas de 500 ml de uma só vez no copo, como é o jeito certo de se servir este estilo. Incluindo as leveduras que ficam no fundo da garrafa e que são tão características do sabor dessa cerveja.

Pint

pint-nonic

São copos com desenho simples, baratos e o volume de cerveja que você coloca é bem maior. Podem apresentar algumas diferenças estéticas que acabam dando outra denominação ao copo. Nele podemos beber Stout, Porter, Witbier, American-English-Indian Pale Ale e Barleywine.

Flauta

flauta

É aquela taça usada para beber espumantes e champagnes, mas são ótimas para observar o creme demorando para sumir entre o líquido. Use quando for beber os estilos Faro, Lambic, Gueuze ou as champegnoises.

Cálice ou Goblet

globet

É um copo feito para manter íntegro o creme e proporcionar a melhor percepção do aroma. De boca larga e pezinho alongado é ideal para Trapistas, Dubbel, Tripel, Quadrupel.

Yard

yard

Esse é um copo no mínimo diferente. Pra começar ele não tem pé. Serve para não restar nenhuma gotinha no fundo. Mas sem pé ele precisa de uma base, que dá até pra usar como alça, como se fosse uma caneca. Por isso parece meio que um tubo de ensaio, só que com a boca bem larga e curvas. Com ele você poderá sentir o aroma com propriedade e observar a carbonatação e se quiser não precisa segurar no copo, evitando transferir o calor da mão para o líquido. Serve o tipo Belgian Golden Strong Ale.

Cilindro

cilindrico

Esse formato não permite o desenvolvimento do aroma, então não use para degustar cervejas muito complexas. São apropriadas para Kölsh, Altbier e algumas fruit-beers.

Conhaque

conhaque

O copo de conhaque é usado para Barley Wines, Eisbock e Imperial Stouts. O formato permite manter a espuma por mais tempo e sentir o aroma também.

IpaGlass

ipa

Bom, esse é um copo específico para as IPAs: American, Specialty, Double e English. Seu formato mostra bem o perfil aromático e ajuda a manter a temperatura da cerveja.

Em terras tupiniquins

O copo tipicamente brasileiro

americano

É o chamado copo americano de produção original da empresa Nadir Figueiredo. O fato de ser chamado americano é uma curiosidade, simplesmente porque era fabricado com a máquina americana. É o copo mais usado no Brasil, em bares, botecos, restaurantes e nas casas das pessoas. A experiência? Amigo, uma cervejinha Pilsen com tira gosto é a melhor experiência, vai por mim!

O famigerado copo de plástico

Gente, tem momento pra tudo. E se você vai pra uma festa com bebida alcoólica existe, muito provavelmente, a possibilidade do recipiente ser um copo de plástico. Daqueles de festinha de criança, de acríclico (cilíndrico ou com a boca mais larga), colorido que seja. Claro que ninguém gosta daquele copo de plástico branco fedorento porque esse sim tem problema por causa do cheiro do plástico. Mas a verdade é que você foi lá por causa do evento, e não da cerveja, certo? Mas mesmo se você tivesse ido por causa da cerveja, como no caso de alguns bierfests, encontrando lá diversos tipos e marcas de breja: vai deixar de beber? Não, lógico que não! Inclusive os jurados de festivais usam copos de plástico, não esqueça! Então, a cerveja não vai mudar de gosto nem vai deixar de ficar na temperatura ideal. Você só não vai ter o momento degustação com a experiência mais interessante.  Cara, relaxa e vai curtir!

Agora vamos fazer o principal: encher esses copos para uma fantástica e maravilhosa experiência cervejeira! Fiquem à vontade para compartilhar sua experiência por aqui, valeu?

*Dados técnicos blogdacerveja.com e brejas.com.br

Você sabe o que desejar na sua cerveja?

Cerveja gelada, cremosa, intensa, encorpada, aromática são os desejos de quem é apreciador, isso é certo. Mas existe muito mais o que desejar. E o que não desejar. Não estou falando de quando ela não está na temperatura ideal, ou está aguada, ou choca. Estou falando dos sabores encontrados no líquido, e quando são desejados. São os chamados flavors e off-flavors de cerveja.

Saiba identificar quais são eles

Flavor é todo sabor que é encontrado na cerveja. É considerado desejado. Se não é desejado é chamado off-flavor.

Um flavor pode se tornar um off-flavor. Sabe aquela máxima que tudo o que é demais estraga? Se aplica bem nesses casos. Agora, um off-flavor nunca será um flavor. Primeiro pela simples razão de desequilíbrio no sabor. Depois porque muitos sabores não eram pra existir e se formam por contaminação ou reação química.

Isso é desejável? Sim, não, quando e por quê?

É, são muitas variáveis, certo? Fazer uma análise sensorial da sua cerveja é complicado e leva aí algum tempo de experiência. Mas dá pra ter uma noção. Dos sabores comuns nas cervejas vou fazer uma lista simplificada para aqueles que entram para o crescente número de apreciadores cervejeiros.

Nessa lista existe um ícone que representa a característica do sabor; um nome usado pela American Society of Brewing Chemist (ASBC) e pela European Brewery Convention (EBC) para determinar o sabor; termos comuns associados aos flavors e uma indicação de quando é um flavor ou off-flavor; e o número do código de sabor da cerveja.

Além de água…

Malte, levedura e lúpulo. Toda cerveja deve ter, em maior ou menor quantidade, vai depender do estilo, da receita, do cervejeiro… e outras variáveis. O amargor, por exemplo, geralmente é associado ao lúpulo e a quantidade desse ingrediente depende muito do sabor que se quer dar à cerveja. Então a análise sensorial se baseia nesses parâmetros:

tabela_de_flavors_malte-01-01

Lúpulo, lúpulo e mais lúpulo

Nem sempre o lúpulo utilizado é o mesmo. Existem várias espécies, é cultivado em diversas regiões geográficas e isso intensifica sabores diferentes em um mundo de combinações e receitas. Além disso ele pode ser usado em flor, óleo ou condimentado:

lupulos-01

Sabores comuns de encontrar

Alguns sabores são bem fáceis de serem percebidos na experimentação. Separei alguns típicos e outros bem curiosos.

tabelas-caramelo-queimado-doce-01

A título de curiosidade, para quem quiser já saber se existe a possibilidade de encontrar o sabor torrado na cerveja, ele é transmitido pela adição de cerais torrados, como a cevada torrada, o malte de chocolate e o malte preto, além de alguns tipos de caramelo.

tabelas-salgado-gramaverde-lightsruck-01

O lightstruck é um off-flavor comum de ser encontrado em cervejas de garrafas transparentes e verdes, porque permitem, com o passar do tempo, a ação do sol e da iluminação no líquido. Em algumas marcas já se tornou parte da identidade do seu sabor.

tabelas-iso-fenolico-isoamila-01

Agora, pessoal, vale lembrar que esses parâmetros são sugeridos para jurados em concursos e para uma noção dos termos. Não precisamos ser “cervochatos” saindo por aí procurando defeitos na cerveja alheia, até porque atualmente a tendência no ramo cervejeiro é acrescentar novos sabores para apreciação. Algumas cervejarias, artesanais inclusive, acrescentam em suas receitas sabores e aromas, por questões de identidade e inovação, que muitos especialistas não gostariam de sentir em determinados estilos.

 

 

 

 

 

A guerra gelada

_MG_1331

As microcervejarias brasileiras são pequenos anões que nasceram numa selva dominada por dois ou três gigantes capitalistas. Do alto de seus arranha-céus, eles observavam o movimento desses pequenos grupos, em trabalho de formiguinha, carregando pesos maiores que suas costas. Até que um dia, o generoso grandalhão resolve estender sua mão direita e se oferece para fazer todo o trabalho duro. E ainda leva os anões pra morar na cobertura. Em troca, pede apenas as suas almas.

Este roteiro tem se repetido pelo Brasil afora: Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina. Megacorporações arrematando aquelas que poderiam, se unidas, se tornar concorrentes consideráveis num futuro próximo.

O assunto explodiu mesmo quando a AmBev, que já havia comprado a mineira Wäls, incorporou também a paulista Colorado, sinalizando que a rotina de fusões deve continuar.

CONTRACULTURA

A revolução do mercado cervejeiro no Brasil tomou força nos últimos 10 anos.  Acostumados que éramos a pedir sempre a mais gelada, ou a rivalizar pateticamente entre os grupos de brameiros ou bebedores de Skol (até aparecer aquele que jurava beber Antártica Sub Zero numa boa), aos poucos aprendemos que pode existir um universo infinito de sabor dentro de um saco de malte. E mais que isso, muito além do malte, descobrimos que dá pra por quase tudo dentro da panela pra cozinhar junto – claro depois de muita pesquisa pra entender que ingredientes combinar.

Assim, as chamadas artesanais assumiram uma posição mais nobre nas wishlists dos consumidores, que se dispunham a pagar 3 ou 4 vezes mais por uma experiência mais rica. O fenômeno recente, visto como uma corrente de contracultura, criou um contingente de admiradores altamente passionais e que logo assumiram posições de defesa sobre o novo segmento de mercado.

VIRA CASACA

E como lidar, portanto, com a entrada das gigantes nesse nicho, que como em toda e qualquer grande investida capitalista, acaba trazendo consequências devastadoras sobre os pequenos? O domínio sobre as prateleiras de supermercados; os preços muito mais baixos e incompatíveis com a realidade das microcervejarias; os estandes gigantescos e luxuosos nos festivais.

Por mais de uma vez presenciamos estupefatos à mudança repentina no discurso de donos de micros vendidas, antes militantes radicais da causa da independência e agora trafegando perigosamente na contramão de seus antigos interesses.

E não me venham com essa chorumela de que com a entrada das grandes nesse mercado haverá uma democratização das cervejas artesanais, já que os novos investimentos vão possibilitar preços mais em conta e maior distribuição, que é tudo em prol de um bem maior. Lembra da justificativa dos “benfeitores” norte-americanos pra invadir o Iraque? Alguém achou armas de destruição em massa por aí? Não somos trouxas assim né?!

ETERNOS ROMÂNTICOS

Há quem diga que negócio é negócio, que aqui não valem romantismos e que as regras que regem o mercado darão conta de trazer equilíbrio a todas as coisas. Livre mercado my ass! Liberdade é a mais pura ilusão vendida pela economia de mercado, a começar pela legislação cheia de equívocos, sempre voltada a interesses escusos e que mantém exilado, numa galáxia muito muito distante, o cenário ideal de competitividade e condições leais entre fabricantes de bebidas.

EM BLUMENAU, SÓ AS PEQUENAS

cerva-02

A última manifestação de que sim, existe uma guerra, e vamos perdê-la se não agirmos rápido, foi a decisão da organização do Festival Brasileiro de Cerveja de Blumenau de proibir a entrada de cervejarias artesanais adquiridas por grandes indústrias na edição de 2017. Comemorado por uns, criticada por outros, o decreto não deixa de refletir o clima de apreensão que anuviou o céu das pequenas fábricas.

Na invasão americana ao Iraque, em 2003, Saddam Hussein arremessava seus Scud contra o Kwait. Mais pareciam traques infantis. Mas o ditador, o tirano, o Satã em pessoa como ficou conhecido, lutou até o fim pelo que acreditava.

Pode-se interpretar assim as ações perpetradas pelos representantes das microcervejarias: um estilingue contra um blindado. Mas sobretudo, apesar da força desproporcional, é importante deixar claro que estamos aqui e não gostamos do que vemos.

Favor não tentar amenizar a gravidade do problema. É preciso sim falar do comportamento das grandes corporações, é necessário que as discussões tomem conta das redes sociais e que todos tenham voz.

O que vemos por aí são figuras notórias no universo das cervejas especiais, formadores de opinião relativizando e suavizando o contexto atroz. E onde estão os super-sommeliers pra nos defender, esses apontadores de dedo que apareceram pra criticar tudo e todas, mas que não hesitam em posar pra foto com uma tacinha de cerveja das grandes marcas?

O saldo do conflito no Oriente Médio foram centenas de milhares de mortos, civis em sua maioria. Já o argumento de araque para a invasão americana, a tal presença de armas de destruição em massa em posse de Saddam, nunca, nunca se confirmou. Mas sim, eles chegaram onde queriam.

 

 

 

 

Uma cerveja pra pensar, não apenas beber

Hábitos geralmente são ações que tomamos como nossas sem saber muito de onde vieram ou o impacto que tem sobre as outras pessoas. No mundo cervejeiro não é diferente. Estereótipos acabam sendo formados e viram efeito cascata de toda uma cadeia. Foi lançada no mercado uma breja feita essencialmente para fugir de alguns estereótipos do mundo cervejeiro. ELA é o nome dela.

Tudo a ver com o conceito. A ELA é uma colaborativa da Cervejaria Dádiva, feita por mestres-cervejeiras e profissionais de vários Estados que chamam a atenção para como as mulheres do setor se sentem frente a posturas sexistas.

A cerveja voz

cerveja voz Ela

Então vamos falar da cerveja. Estou na expectativa porque foi uma escolha com personalidade: uma American Barley Wine.

O estilo é desafiador (devido a todas as dificuldades de produção) e se beneficia muito do envelhecimento tardio com madeiras, ficando melhor a cada ano. Então, quem aguentar guardar a sua breja especial por um tempo vai poder apreciar novos sabores e aromas.

É daquelas cervejas que você tem que comprar sempre em pares: uma pra consumir logo e outra pra comparar depois de um tempo, certo?!

Além disso, possui alto teor alcoólico. Uma American Barley Wine não é pra sair bebendo feito louco! A ELA, por exemplo, tem assustadores 10,5% de graduação.

o amargor do estilo é forte, por causa da lupulagem, que também é alta. Outra curiosidade da ELA: foi usado um lúpulo chamado Ella na sua receita. Ele é cultivado na Austrália e dá um contraste cítrico com aroma picante e floral.

Já to louco aqui pra experimentar, porque particularmente é um estilo que gosto muito. 

13659201_262659877446334_5886190851547298394_n

Agora você já sacou a proposta da colaborativa ELA: um estilo de cerveja forte que desmistifica aquela ideia estereotipada de que as mulheres só gostam de cervejas com sabores suaves. Inclusive aqui no Vale do Aço, especialmente nas casas da cervejaria Brüder, a venda da Amber Lager para mulheres sempre foi maior do que os estilos mais suaves da cervejaria.

Ideal e Iniciativa

Além disso a iniciativa de reverter o lucro da venda das cervejas ELA em seus lançamentos para instituições de apoio à mulheres vítimas de violência é uma forma de tocar nessa verdade altamente inconveniente: violência física e psicológica contra mulheres. Realidade complexa, que muitas vezes passa pela desculpa do uso exagerado do álcool e que deve ser discutida com mais profundidade pela sociedade, e a ELA se propõe a isso.

ELA - facebook @cervejaporelas

O lançamento da cerveja Ela em Minas Gerais vai ser em BH dia 07 de setembro, no BH Cerveja – Rua Conselheiro Lafaiete 510, Sagrada Família. Contato: (31) 2510 1377

Você pode saber mais sobre a iniciativa idealizada também pela sommelière Aline Smaniotto Tiene nas redes sociais do Coletivo Ela @cervejaporelas.

*Imagens da rede social Facebook ELA

FICC: a pegada drinkability PARTE 4

Sempre presente nos festivais mineiros, a cervejaria Capapreta de Nova Lima tem uma pegada bem interessante que é trabalhar o sabor de suas cervejas para o público brasileiro. Preocupação do Lucas Godinho, dono da cervejaria. Quem me contou desses pormenores foi o outro Lucas (o de Magalhães, o homebrewer da Capapreta).

galeracapapreta

O Lucas M. apresentou a breja que seria a cara do festival (vocês ainda lembram que o FICC deste ano homenageou os ingleses, né?): a English Pale Ale estilo ESB – Extra Special Bitter – autêntica bitter inspirada na escola inglesa de cervejas, que puxa notas de biscoito do malte em meio ao aroma lupulado do líquido de cor escura e corpo de média densidade.

cervejariacapapreta

Enquanto ele contava sobre os outros estilos, escolhi o meu pra degustar. Uma Raspberry Porter que respeita a tradição inglesa, mas inova com o toque tupiniquim ao usar frutas. Decisão do Lucas G. que resultou em uma cerveja escura e forte, ao mesmo tempo seca com o azedinho da framboesa.

raio-x cachorro

 

Um bom café da manhã tem que ter… CERVEJA

Não, não é um café da manhã depois de meio dia. É de manhã mesmo. Até já ouviu falar nisso, mas acha esquisito? Pois saiba que é uma prática muito comum na Alemanha e na Bélgica e que já tem alguns bares curtindo a onda em terras tupiniquins. Inclusive teve uma matéria publicitária do G1 desse mês com o sommelier José Raimundo Padilha dando algumas dicas de harmonização no café da manhã. Não sou muito fã do lance de misturar uma Weiss com suco de laranja, nem da ideia da Stout com sorvete, mas tem gosto pra todo mundo.

Como é na Alemanha

Weißwurstfrühstück

Não, na Alemanha o café da manhã não é só com cerveja, tem café e chá também. Mas o Tradicional Bávaro se chama Weißwurst FrühstückComo essa refeição é composta de salsicha de vitela com bacon e um pão chamado brezen, rola uma harmonização com cerveja de trigo.

Dá pra fazer no Brasil?

Quem gosta de cerveja a toda hora pode harmonizar com café da manhã no Brasil tranquilamente. O próprio Padilha apresenta opções para o bolo de fubá (bem tradicional em Minas) e indica weiss ou fruit beer para acompanhar frutas. Aliás, em alguns lugares o café da manhã tradicional deveria até ser degustado com cerveja mesmo, porque são fortes, principalmente em alguns locais do nordeste, por exemplo.

Café com sustança

Em alguns lugares do nordeste do Brasil o costume é quase que almoçar pela manhã. Receitas salgadas com leite de cabra e carne de bode são bem comuns e possuem sabor característico bem fortes. Pensaria nesse caso em harmonizar com uma IPA ou uma barley wine inglesa, tradicional, bem maltada.

Mas na maioria dos cafés que experimentei nas viagens ao Nordeste tive contato com queijo coalho temperado com ervas de inúmeras características aromáticas. Pensaria em combinar esses sabores com uma witbier, em respeito ao tempero usado nesses queijos, porque são cervejas temperadas, em geral com coentro (que trazem refrescância) casca de laranja, complexas pelo uso do trigo não maltado ou aveia.

tapiocacomcarneseca

No caso de receitas a base de milho, como cuscuz, ou de receitas com tapioca, quando suaves, poderiam perfeitamente ser apresentados com uma pilsen. Mas também existem receitas de tapioca um pouco pesadas. É o caso da tapioca de carne seca. Acompanhada com mandioca cozida (chamada por lá de macaxeira) e manteiga de garrafa. Acredito que o ideal seria degustar com uma American Pale Ale bem lupulada, com amargor e aroma cítrico.

Em Minas Gerais

Não se pode pensar em café da manhã mineiro sem queijo. Amamos queijo. E queijo pede café. Alguns estilos de cerveja trazem em suas características mais marcantes os tons de café, tons de torrado, chocolate amargo. São leves, secas e fáceis de beber. Começaria o dia extremamente feliz com um queijo meia cura e uma dry stout.

paodequeijo

Ah, e um pão de queijo, é claro. Como é mais cremoso a harmonização que prefiro é com uma oatmeal stout, das tradicionais Stout com aveia. São aveludadas e saborosas e combinam perfeitamente com um pãozinho de queijo saindo do forno…

Café colonial

cafecolonial

O tradicional café do sul do país tem de tudo. Seria até difícil dizer todas as possibilidades de harmonização. Mas a presença de embutidos é costume, principalmente os defumados. Uma cerva que ficaria ótima seria uma rauchbier.  Combina inclusive com ovos e bacon, para quem é adepto de um café reforçado.

7 versus 1

Aproveitando o jogo de hoje crio um post para acalmar os corações da torcida tupiniquim. Particularmente acredito que essa seleção seja capaz de ganhar, não apenas pela deficiência do time alemão, que vem desfalcado, mas pelo espírito desse elenco canarinho.

Gosto de seleções compostas por jogadores festeiros. Essa seleção possui muitos jogadores que ainda atuam no Brasil ou que pelo menos não esqueceram como se joga aqui, acho que estão com mais vontade do que aquelas cheia de “estrelas ” que atuam na Europa. Zagueiros mal encarados, linha de frente “alegre e irresponsável”. Assim nós ganhamos as copas. Assim quem sabe não teremos o único título que falta para o futebol brasileiro.

Então, antes do resultado, sendo bom ou ruim, resolvi empatar o placar do tenebroso encontro da CBF com a Alemanha. Assim vamos para o jogo não com sede de vingança, mas com o espírito olímpico de competir para ser uma seleção de ouro! Como? Com uma lista de estrelas do mundo cervejeiro.

Zerando o placar

7x1

Sabe que dizer que os alemães são os melhores na fabricação de cerveja, assim como os brasileiros melhores no futebol é uma comparação totalmente equivocada. Mas dizer que existem excelentes cervejas tanto lá quanto aqui é certo. Já apreciei algumas nessa minha trajetória e gostaria de compartilhar uma lista. Escolhi 8 tipos de brejas para apresentar para vocês. 1 é alemã e as outras 7 feitas por cervejarias brasileiras. Não é uma comparação, entendam bem. É só uma lista. Um 7 a 1 para você anotar no caderno e apreciar.

Sete Tupiniquins

1. Alt

O estilo difícil de ser encontrado é produzido pela Bamberg com alta fermentação, corpo leve e baixa carbonatação. De coloração escura avermelhada e espuma marrom persistente é fácil de ser bebida e muito complexa nos aromas com notas de frutas vermelhas, floral e caramelo e nos sabores de um frutado sutil, toffee, e caramelo, com amargor marcante do lúpulo de final seco. Harmoniza com pratos apimentados, gordurosos, carnes vermelhas e de caça.

2. Weizen

A cerveja de trigo harmoniza de forma excelente com peixes, frutos do mar, carne de vitela, saladas de folha, ovos com bacon, receitas com milho, salgadinhos de peixe como bolinho de bacalhau e também com comida japonesa. Na Brüder, a weizen é alaranjada, turva, de sabor frutado e leve amargor.

3.Weizenbock

A weizenbock produzida pela cervejaria Bierbaum (que aliás ganhou o título de melhor cervejaria da América do Sul na última South Beer Cup) é fantástica. É feita com malte pilsen brasileiro e 6 variedades de maltes alemães, além de 1 variedade de lúpulo alemão da região de Hallertau. Seu sabor de trigo (semelhante a pão) com aroma intenso de frutas escuras rendeu à breja 5 “Ouros” em competições na categoria. É uma cerveja que combina bem com carnes vermelhas, massas e grelhados.

4. Schwarzbier

Para produzir essa cerveja, a Falke Bier faz a torrefação do malte na própria cervejaria. E ela é uma micro. Batizada de Ouro Preto, a schwarzbier harmoniza bem com carnes vermelhas, chocolates amargos e apimentados e com os queijos como o Gorgonzola ou o Camembleu.

5. Bock

A Bierland fabrica uma bock que foi premiada mundialmente algumas vezes, inclusive com o ouro no último European Beer Star, realizado na Alemanha.  De coloração marrom com nuances avermelhadas, transparência opaca, e sabores maltados com aromas de nozes e avelãs, harmoniza bem com a brasileiríssima feijoada, com carne de panela e chocolate.

6. Germand Pilsner

Também é produzida pela cervejaria Dortmund  possui coloração amarelo-ouro, é encorpada, tem aroma suave de malte, amargor equilibrado e sensação residual de lúpulo.

7. Dunkel

Produzida pela cervejaria Cidade Imperial, apresenta cor escura, é espumante e tem leve sabor torrado. O perfil aromático é natural do malte, com toques de chocolate, caramelo, nozes ou toffee, não frutado.

Uma Deutsche

Escolhi uma tradicional weiss para representar uma alemã. A cerveja produzida pela Weihenstephanerna Bavária desde 1040, é fantástica. O nome é Hefe Weissbier e apresenta coloração âmbar, turva, com boa espuma. Com aroma adocicado e sabor frutado, picante, de um tostado muito sutil, é excelente para acompanhar carnes, massas e pratos leves em geral, além de petiscos alemães e brasileiros também.

FICC: A força do interior (ou beervangelização) PARTE 3

Com apenas 4 anos de idade, a serem completados no final de 2016, a Fürst, localizada em Formiga, ajuda a engrossar o caldo da produção cervejeira do interior. Com apenas 8 mil litros produzidos por mês, a cervejaria já ostenta prêmios importantes no cenário nacional, como a medalha de prata no Festival Brasileiro da Cerveja de Blumenal, na categoria Irish Red, e a medalha de ouro, na categoria Marzën.

cervejas furst

É cerveja feita com muito carinho. Como o próprio cervejeiro da Fürst, Paulo Leite, costuma dizer, “nossa missão é beervangelizar todo mundo, levando a cultura cervejeira por todos os cantos de Minas”.

Para aquecer a alma

Durante o Festival Internacional de Cerveja e Cultural – FICC, de BH, experimentamos algumas das criações dessa galera formiguense, todas muito boas, mas sem dúvida a Wee Heavy chamou bastante atenção. Foi a sensação do inverno que está chegando ao fim. Essa versão do estilo Smoked Scoth Ale é uma cerveja mais maltada, com notas de caramelo e aroma defumado. O final do gole tem um pouco mais de álcool, já que seu teor é de 8%. Definitivamente uma cerveja pra aquecer o corpo do bebedor.

fürsts
Assim como os demais rótulos da Fürst, a Wee Heavy é bem equilibrada, sem radicalismos. Alto drinkability, pra beber naturalmente e em volumes maiores, mas mantendo respeito às tradições do estilo.
Um viva pra esses caras! O interior de Minas é fenomenal.

Cerveja colaborativa: você conhece alguma? Nós apenas começamos…

Cerveja colaborativa é o termo para definir uma cerveja produzida com a colaboração de uma cervejaria (ou mais de uma) no processo de produção. Essa é a nossa primeira, e acredito que teremos muitas, porque é um trabalho fantástico.

No caso desta cerveja, chamada de  Grande Sertão Coquinho Azedo, exploramos um novo sabor vindo do cerrado mineiro, proposta muito bem vinda da Oficina de Cerveja Artesanal, que idealizou juntamente com a Brüder a série “Natural do Brasil”, uma linha de cervejas especiais que utiliza ingredientes da biodiversidade brasileira em suas receitas.

coquinho_azedo

A produção dessa cerveja foi um grande desafio, mas com muita conversa entre os colaboradores, pesquisa e testes, equilibramos o sabor incomum do coquinho azedo, também conhecido como butiá,  na receita da cerveja, mistura essa que deu certo, e o resultado foi uma Fruit Beer.

Bruder_Coquinho_Azedo_02b

Nós apenas começamos…

A ideia de associar frutos e outros elementos da flora brasileira à cerveja é um projeto pensado há alguns anos pelo engenheiro de alimentos João Ávila, da Oficina de Cerveja Artesanal. Ele, além de cervejeiro, atua também como consultor em projetos de uso sustentável destes recursos junto a cooperativas de agricultores em áreas de Cerrado, Amazônia e Caatinga, incluindo a Grande Sertão.

coquinho azedo

A Cooperativa Grande Sertão trabalha com vários produtos da agricultura familiar e do extrativismo, como óleos vegetais, doces, conservas e polpas de frutas nativas, e é claro, o coquinho azedo, matéria prima da nossa fruit beer.

A consolidação do projeto foi quando o Rildo, diretor da cervejaria, topou a ideia de produzir uma cerveja colaborativa, com a Oficina e com a Grande Sertão, que agrega em sua fórmula a sustentabilidade e a originalidade dos sabores do Brasil.

É só o começo…

Coquinho Azedo = cerveja equilibrada

A Coquinho Azedo foi desenvolvida a partir de uma base de cerveja puro malte, com maltes especiais para dar complexidade e com lúpulos de características picantes do tipo saaz. Optamos por não filtrar a cerveja e aplicamos uma grande carbonatação, o que lembra um pouco as tradicionais cervejas tipo bruit.

Bruder_Coquinho_Azedo_01b

A receita da cerveja foi pensada para que o resultado fosse uma cerveja que aceitaria bem a acidez, o perfil aromático e todas as peculiaridades do fruto típico do cerrado brasileiro.
A longa maturação possibilitou uma cerveja clara, refrescante, harmoniosa no sentido visual e gustativo, bem carbonatada para perceber os aromas do coquinho, e extremamente equilibrada e fácil de beber.