Um coração tatuado no peito

Poderíamos afirmar que a nova Brüder Indian Pale Ale, ao invés de um rótulo, possui uma tatuagem. Metade coração humano, metade flor de lúpulo, o desenho do rótulo da IPA foi criado pela tatuadora Ana Carolina de Souza, mas a finalidade não era bem essa.

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A tatuadora Ana Carolina de Souza do TattooArtt

Sabe criança que gosta de desenhar? Tipo todas né! Pois a Carol começou assim, brincando. Até que aos 12 anos fez seu primeiro curso, durante rápidos 3 meses, e ficou claro que a parada era séria.
Hoje com 29 anos de idade, ela é proprietária do estúdio TattooArtt. É também uma das mais requisitadas em Ipatinga/MG – cidade sede da cervejaria – devido ao seu talento singular para o desenho. Acredite, nem todo tatuador é bom em desenhar de forma criativa. A maioria deles apenas copia ilustrações que já existem.

O ACASO

Especialista no estilo Aquarela – uma das técnicas de pintura artística mais antigas que tem sido muito aplicada em estúdios de tatuagem -, ela foi contratada pela cervejaria para integrar uma ação de marketing que envolvia outros tatuadores. Cada um ficou encarregado de criar três desenhos com temática ligada à cerveja, e as criações seriam transformadas em estampas de camisas para comercialização com a marca Brüder – em breve essa novidade vai pintar aí.
Acontece que a data de entrega dos desenhos coincidia com o período de planejamento e criação da identidade visual da IPA. “Quando chegou este desenho da Carol, não tive dúvida. Já estava quebrando a cabeça para criar o novo rótulo quando a solução caiu no meu colo”, afirma o designer Pedro Bastos, do Studio Integral, que elaborou os rótulos das outras quatro cervejas e também da Red Christmas Lager, a sazonal de fim de ano da cervejaria.
Aprovado também com louvor pela diretoria da Brüder, o coração lupulado ganhou um novo espaço, bem mais nobre. “Foi uma grande surpresa pra mim, fiquei muito lisonjeada. Nunca pensei que veria um desenho meu num rótulo de cerveja”, conta a tatuadora que, por capricho do destino, prefere bebidas destiladas.

A CARA DA CERVEJARIA

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Rótulo da Brüder Indian Pale Ale

Mas quais são os parâmetros para a elaboração de um rótulo de cerveja? Bem, antes de mais nada, o encarregado desta missão deve captar a alma da cervejaria. Ele é a continuidade conceitual do produto contido na garrafa, por isso o designer, além de criativo e culto, deve saber relacionar as duas coisas.
Existe também uma série de dados técnicos cuja presença na embalagem é exigida pela legislação. Mas sempre é possível extrapolar o trivial e esclarecer melhor o consumidor a respeito do ele que está bebendo.
Por fim, a cerveja, como a maioria das bebidas alcoólicas, remete a alegria, regozijo, prazer. Por isso, o bom humor é sempre uma ferramenta poderosa.

O puromaltismo, o milho e todas as outras coisas

Momentos de mudança geram estranheza, rejeição e, principalmente, oportunidade de tirar proveito da situação. Desde o seu surgimento há pouco mais de uma década, a revolução cervejeira no Brasil, protagonizada pelos desbravadores das microcervejarias, suscitou certas discussões sobre a forma de se produzir a bebida. As diferenças de processos, o uso da tecnologia, entre vários outros tópicos pra lá de escabrosos já circularam nos blogs e mesas de botecos e varandas gourmet da vida. Mas um assunto especial em nenhum momento teve ameaçada a sua posição de protagonista das polêmicas. Reina absoluto no topo do ranking dos debates cervejorreicos, o campeão de todas as discórdias: o famigerado cereal não-maltado – vulgarmente conhecido como milho.
Nos últimos dias vimos a supermegamultinacional fazendo propaganda sobre os benefícios do milho na breja nossa de cada dia. Aí o pau come solto. Ok, a gente até entende que cozinhar milho barateia a parada, deixa o produto mais acessível e todo mundo pode beber um pouco mais. Mas botar o tira-gosto preferido da Galinha Pintadinha em cima de um pedestal é demais, né?!

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O fundamento mais evocado nessas grandes cruzadas “córnicas” é a tal Lei da Pureza Alemã, que coincidentemente acaba de completar 500 anos. Mas será mesmo que as diretrizes europeias, instituídas há meio milênio, realmente serviriam de argumento para a resistência ao uso do milho? Não é bem isso. Vamos aditivar a discussão que é um pouco mais turva do que se pensa.
Minha aceitação ao uso da matéria prima da pipoca na produção de minha bebida preferida tende a zero. Mas não sou radical. Acredito sim que muitos dos deliciosos porres que já tomei na vida só foram possíveis porque cerveja de milho é mais barata e pude comprar logo uma caixa inteira só pra mim sem doer muito no bolso.

As alternativas são várias

Contudo, a desculpa esfarrapada de que milho – ou arroz – podem ser alternativas para diversificação dos ingredientes usados na cerveja, com vistas a criar receitas diferentes, é mais uma daquelas verdades fabricadas, movidas por interesses suspeitosos e empurradas goela abaixo do consumidor. Perceba a contradição: vamos diversificar os ingredientes, mas queremos usar apenas um ou dois.

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E o mais irritante é que pra justificar suas posições questionáveis, um executivo da Ambev saiu dizendo que não devemos nos limitar à Lei de Pureza Alemã, que isso é algo ultrapassado. Mas hein? Os verdadeiros entendidos do assunto e formadores de opinião não são assim apegados a essa lei. Deu pra entender a falcatrua?
Os novos cervejeiros brasileiros não se pautam pelo puromaltismo. Tem muita cerveja que mistura um monte de ingredientes e oferecem um sabor mais rico, elaborado, exótico. É assim que se faz uma cerveja diferente, ainda que ela não tenha só malte de cevada. A maioria das cervejarias artesanais nem liga pra esse “título de nobreza”. Preste atenção aos rótulos e veja que são as grandes marcas que de fato usam essa característica como recurso de marketing.
Não se engane, produtor que tem suas raízes na produção artesanal não é bitolado na legislação medieval alemã. O cervejeiro contemporâneo está muito além disso. Tem muito mais a oferecer.
Mas não me venha com esse papo de milho pra fazer cerveja boa. Se quer diversificar, temos vastas experiências de cervejeiros que metem de tudo nas suas receitas. Além da cevada tem trigo, tem frutas, ervas, café e muito mais. Nesse caso não temos cerveja puro malte, já que há outros ingredientes além da cevada, mas eles servem pra enriquecer o paladar ao invés de simplificá-lo. Muitas vezes custa mais caro usar esses ingredientes diferentes, mas é tudo por uma boa causa. Uma causa verdadeira.

Bom pra quem?

A informação manipulada tenta te convencer de que cereal não-maltado pode ser bom. Bom pra quem? Já parou pra pensar que boa parte do milho usado na sua cerveja é transgênico? Sabe o que isso implica? Essa é uma outra discussão ainda mais cabeluda e que extrapola o mundo cervejeiro, mas não é coisa boa.
Por fim, se tanta gente ainda prefere uma cerveja leve, de pouco sabor – que é a principal característica da bebida de milho -, provavelmente é porque ainda não experimentou algo realmente diferente. Mas a luta continua, companheiro!

*RodZefer é jornalista, colaborador do Studio Integral e bebedor curioso.

Supersincera: essa cerveja não vai cair bem

– Ãhn? Como assim “essa cerveja não vai cair bem”?

-Porque cerveja atrapalha quem quer emagrecer. Prejudica o trabalho de hipertrofia, retém líquido e não hidrata. Além disso se você for correr vai reduzir seu rendimento e causar fadiga antes da competição. Nada de consumir álcool uma semana antes da corrida.

Ouvi isso às vésperas da competição da nutricionista. Poxa, já tava me imaginando re-turbinando as energias com aquele chope gelado… Beleza, deixa pra depois… fazer o que. Tudo por uma medalha… Aí lembrei: TODO MUNDO GANHA UMA! Cara! Vou me juntar na fila do fundo com a galera da lanterna rsrsrsrs.

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Falando sério

Deixando a brincadeira de lado, fomos ter uma bate-papo com a nutri Mariane Martins*. Para quem quer competir de verdade vale mesmo as dicas acima. Muita gente não sabe, mas antes de uma competição esportiva existem algumas coisas que atrapalham. Muitas relacionadas à alimentação. E não só a cerveja, mas a bebida alcoólica prejudica muito o rendimento.

Balada pode?

Não, não poooode. Seria coisa de Drª Lorca se ela falasse que podia, né. A pessoa precisa descansar e se alimentar bem antes de realizar qualquer esporte.

Estoque zerado

Segundo Mariane, muita gente não come nada e vai pra corrida. Prática que prejudica não só o desempenho como a perda da energia. Se o estoque está zerado, seu corpo vai tirar energia de onde? O que acontece é que na falta de carboidrato, nutriente principal para corredores de rua, o corpo consome a próxima fonte de energia: a proteína muscular. Ou seja, ao invés de “construir” massa muscular você vai “consumir”. Sem falar na alteração dos índices glicêmicos que podem até causar desmaios durante a prática do esporte. Então, antes de competir, coma algum alimento leve no mínimo 30 minutos antes da corrida. Uma fruta ou um pote de iogurte já ajudam.

Contando os pontos

Quem escolhe a corrida para manutenção do peso ou para emagrecer precisa literalmente balancear atividade física versus consumo de cerveja. Não é a tal dieta dos pontos não, é simplesmente negociar com a balança. Um copo de cerveja de 300ml (mesmo sem álcool ou sem glúten) tem em média de 120 a 180 calorias. Equivale a 1 pão francês com miolo e tudo. Imagina se você tomar as 9 brejas de sempre… ainda com aperitivos…

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Como qualquer outro alimento a cerveja tem as suas calorias, então a questão é a quantidade. O consumo em grande quantidade com certeza vai engordar. Mas, consumindo com moderação você não vai entrar na briga com a balança.

O Mito da Barriga

Aproveitando, perguntamos pra nutri se aquela crença de que cerveja dá barriga é verdade. Ela falou que não (gracias!!!) e explicou que o que acontece é o acúmulo de gordura em quem é geneticamente propenso a ter um maior número de células adiposas nessa região. Vale pra quem tem no quadril, no braço, no peito, no dedão do pé… rsrsrs.

*Mariane Martins é graduada em Nutrição pela Universidade Federal de Ouro Preto – MG e Mestre em Ciências da Nutrição pela Universidade Federal de Viçosa – MG.

Cerveja pra beber, não pra competir

Acabamos de ser premiados com mais uma medalha de prata para a nossa Brüder American Red Lager na categoria International Amber Lager na Copa Cervezas de America, e também com uma medalha de bronze para a Weizen na categoria Weissbier. Queríamos ser reconhecidos com um ouro? Claro, todo mundo quer! Mas estamos obcecados com isso? Não. Estamos superfelizes por, com apenas cinco anos de cervejaria, já termos três medalhas de grandes premiações. Até porque confesso que não faço a receita da nossa cerveja pensando em competições. A receita é pensada no sabor do que seria uma boa cerveja para os cervejeiros, para o brasileiro e o tipo de comida que consumimos.

Todas podem ganhar juntas

Aí vem aquela perguntinha: ah, suas cervejas ficaram com as medalhas de prata e bronze. Quem ficou em primeiro lugar? Aí é que tá o bacana do concurso de cerveja e o motivo de a gente participar. Não existe simplesmente primeira, segunda e terceira colocação por categoria. Tem a categoria e a cerveja que alcança pontuação suficiente para levar uma medalha de ouro, prata ou bronze. E várias cervejas podem alcançar a mesma medalha.

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Ganhar uma medalha é um puta marketing pra cervejaria. Mas não é só isso. Essas medalhas são um feedback de especialistas sobre a fidelidade da receita em relação ao estilo proposto. Eles mostram problemas encontrados e apontam os rótulos que merecem destaque e reconhecimento através da premiação. É uma indicação de que sua cerveja está ou não no padrão do estilo. Bom, será que vale a pena deixar de fazer sua receita artesanal, gostosa e diferente, que o pessoal curte, para entrar num padrão?
É aí que tentamos achar o ponto de equilíbrio. Acreditamos que devemos nos concentrar no nosso objetivo, que é produzir a bebida que nossos clientes gostam.
Participamos sim dos concursos pra ter o retorno sobre a qualidade, queremos que os juízes experimentem e digam: “sim, está na linha de uma amber lager”.
Se “pecamos”, é porque não buscamos nos adaptar cegamente aos guias de estilos. Respeitamos tais estilos, mas somos fiéis, sobretudo, aos nossos princípios.

Uma cozinha no jardim

O evento não estava lotado, mas a sensação que tive quando botei fogo nas panelas foi de que todo mundo estava lá para, no mínimo, visualizar por inteiro o processo de produção de uma cerveja artesanal.

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Homens e mulheres se acomodaram bem perto do fogão quando anunciei o início da brassagem aberta, que aconteceu no último sábado (25/09) no Jardim Japonês do Centro Cultural Usiminas, aqui em Ipatinga, durante o Brüder Day, evento que comemorou os 5 anos da cervejaria.
Comecei narrando o que estava acontecendo, esclarecendo cada passo do processo para os leigos, mas logo surgiram perguntas bastante pertinentes, típicas de quem já tem alguma experiência com a cozinha cervejeira.

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Programei uma cerveja simples, rápida, pra que o público pudesse presenciar todas as etapas. Não arredaram pé.
Ao final, o mosto foi doado para um cervejeiro caseiro que usará fermento próprio para concluir a produção, calculada para render 20 litros.

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Quando ficar pronta a gente avisa se ficou ótima ou sensacional.
Em breve vamos repetir a dose, fique ligado aqui no blog!

A guerra gelada

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As microcervejarias brasileiras são pequenos anões que nasceram numa selva dominada por dois ou três gigantes capitalistas. Do alto de seus arranha-céus, eles observavam o movimento desses pequenos grupos, em trabalho de formiguinha, carregando pesos maiores que suas costas. Até que um dia, o generoso grandalhão resolve estender sua mão direita e se oferece para fazer todo o trabalho duro. E ainda leva os anões pra morar na cobertura. Em troca, pede apenas as suas almas.

Este roteiro tem se repetido pelo Brasil afora: Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina. Megacorporações arrematando aquelas que poderiam, se unidas, se tornar concorrentes consideráveis num futuro próximo.

O assunto explodiu mesmo quando a AmBev, que já havia comprado a mineira Wäls, incorporou também a paulista Colorado, sinalizando que a rotina de fusões deve continuar.

CONTRACULTURA

A revolução do mercado cervejeiro no Brasil tomou força nos últimos 10 anos.  Acostumados que éramos a pedir sempre a mais gelada, ou a rivalizar pateticamente entre os grupos de brameiros ou bebedores de Skol (até aparecer aquele que jurava beber Antártica Sub Zero numa boa), aos poucos aprendemos que pode existir um universo infinito de sabor dentro de um saco de malte. E mais que isso, muito além do malte, descobrimos que dá pra por quase tudo dentro da panela pra cozinhar junto – claro depois de muita pesquisa pra entender que ingredientes combinar.

Assim, as chamadas artesanais assumiram uma posição mais nobre nas wishlists dos consumidores, que se dispunham a pagar 3 ou 4 vezes mais por uma experiência mais rica. O fenômeno recente, visto como uma corrente de contracultura, criou um contingente de admiradores altamente passionais e que logo assumiram posições de defesa sobre o novo segmento de mercado.

VIRA CASACA

E como lidar, portanto, com a entrada das gigantes nesse nicho, que como em toda e qualquer grande investida capitalista, acaba trazendo consequências devastadoras sobre os pequenos? O domínio sobre as prateleiras de supermercados; os preços muito mais baixos e incompatíveis com a realidade das microcervejarias; os estandes gigantescos e luxuosos nos festivais.

Por mais de uma vez presenciamos estupefatos à mudança repentina no discurso de donos de micros vendidas, antes militantes radicais da causa da independência e agora trafegando perigosamente na contramão de seus antigos interesses.

E não me venham com essa chorumela de que com a entrada das grandes nesse mercado haverá uma democratização das cervejas artesanais, já que os novos investimentos vão possibilitar preços mais em conta e maior distribuição, que é tudo em prol de um bem maior. Lembra da justificativa dos “benfeitores” norte-americanos pra invadir o Iraque? Alguém achou armas de destruição em massa por aí? Não somos trouxas assim né?!

ETERNOS ROMÂNTICOS

Há quem diga que negócio é negócio, que aqui não valem romantismos e que as regras que regem o mercado darão conta de trazer equilíbrio a todas as coisas. Livre mercado my ass! Liberdade é a mais pura ilusão vendida pela economia de mercado, a começar pela legislação cheia de equívocos, sempre voltada a interesses escusos e que mantém exilado, numa galáxia muito muito distante, o cenário ideal de competitividade e condições leais entre fabricantes de bebidas.

EM BLUMENAU, SÓ AS PEQUENAS

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A última manifestação de que sim, existe uma guerra, e vamos perdê-la se não agirmos rápido, foi a decisão da organização do Festival Brasileiro de Cerveja de Blumenau de proibir a entrada de cervejarias artesanais adquiridas por grandes indústrias na edição de 2017. Comemorado por uns, criticada por outros, o decreto não deixa de refletir o clima de apreensão que anuviou o céu das pequenas fábricas.

Na invasão americana ao Iraque, em 2003, Saddam Hussein arremessava seus Scud contra o Kwait. Mais pareciam traques infantis. Mas o ditador, o tirano, o Satã em pessoa como ficou conhecido, lutou até o fim pelo que acreditava.

Pode-se interpretar assim as ações perpetradas pelos representantes das microcervejarias: um estilingue contra um blindado. Mas sobretudo, apesar da força desproporcional, é importante deixar claro que estamos aqui e não gostamos do que vemos.

Favor não tentar amenizar a gravidade do problema. É preciso sim falar do comportamento das grandes corporações, é necessário que as discussões tomem conta das redes sociais e que todos tenham voz.

O que vemos por aí são figuras notórias no universo das cervejas especiais, formadores de opinião relativizando e suavizando o contexto atroz. E onde estão os super-sommeliers pra nos defender, esses apontadores de dedo que apareceram pra criticar tudo e todas, mas que não hesitam em posar pra foto com uma tacinha de cerveja das grandes marcas?

O saldo do conflito no Oriente Médio foram centenas de milhares de mortos, civis em sua maioria. Já o argumento de araque para a invasão americana, a tal presença de armas de destruição em massa em posse de Saddam, nunca, nunca se confirmou. Mas sim, eles chegaram onde queriam.

 

 

 

 

Uma cerveja pra pensar, não apenas beber

Hábitos geralmente são ações que tomamos como nossas sem saber muito de onde vieram ou o impacto que tem sobre as outras pessoas. No mundo cervejeiro não é diferente. Estereótipos acabam sendo formados e viram efeito cascata de toda uma cadeia. Foi lançada no mercado uma breja feita essencialmente para fugir de alguns estereótipos do mundo cervejeiro. ELA é o nome dela.

Tudo a ver com o conceito. A ELA é uma colaborativa da Cervejaria Dádiva, feita por mestres-cervejeiras e profissionais de vários Estados que chamam a atenção para como as mulheres do setor se sentem frente a posturas sexistas.

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Então vamos falar da cerveja. Estou na expectativa porque foi uma escolha com personalidade: uma American Barley Wine.

O estilo é desafiador (devido a todas as dificuldades de produção) e se beneficia muito do envelhecimento tardio com madeiras, ficando melhor a cada ano. Então, quem aguentar guardar a sua breja especial por um tempo vai poder apreciar novos sabores e aromas.

É daquelas cervejas que você tem que comprar sempre em pares: uma pra consumir logo e outra pra comparar depois de um tempo, certo?!

Além disso, possui alto teor alcoólico. Uma American Barley Wine não é pra sair bebendo feito louco! A ELA, por exemplo, tem assustadores 10,5% de graduação.

o amargor do estilo é forte, por causa da lupulagem, que também é alta. Outra curiosidade da ELA: foi usado um lúpulo chamado Ella na sua receita. Ele é cultivado na Austrália e dá um contraste cítrico com aroma picante e floral.

Já to louco aqui pra experimentar, porque particularmente é um estilo que gosto muito. 

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Agora você já sacou a proposta da colaborativa ELA: um estilo de cerveja forte que desmistifica aquela ideia estereotipada de que as mulheres só gostam de cervejas com sabores suaves. Inclusive aqui no Vale do Aço, especialmente nas casas da cervejaria Brüder, a venda da Amber Lager para mulheres sempre foi maior do que os estilos mais suaves da cervejaria.

Ideal e Iniciativa

Além disso a iniciativa de reverter o lucro da venda das cervejas ELA em seus lançamentos para instituições de apoio à mulheres vítimas de violência é uma forma de tocar nessa verdade altamente inconveniente: violência física e psicológica contra mulheres. Realidade complexa, que muitas vezes passa pela desculpa do uso exagerado do álcool e que deve ser discutida com mais profundidade pela sociedade, e a ELA se propõe a isso.

ELA - facebook @cervejaporelas

O lançamento da cerveja Ela em Minas Gerais vai ser em BH dia 07 de setembro, no BH Cerveja – Rua Conselheiro Lafaiete 510, Sagrada Família. Contato: (31) 2510 1377

Você pode saber mais sobre a iniciativa idealizada também pela sommelière Aline Smaniotto Tiene nas redes sociais do Coletivo Ela @cervejaporelas.

*Imagens da rede social Facebook ELA

FICC: a pegada drinkability PARTE 4

Sempre presente nos festivais mineiros, a cervejaria Capapreta de Nova Lima tem uma pegada bem interessante que é trabalhar o sabor de suas cervejas para o público brasileiro. Preocupação do Lucas Godinho, dono da cervejaria. Quem me contou desses pormenores foi o outro Lucas (o de Magalhães, o homebrewer da Capapreta).

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O Lucas M. apresentou a breja que seria a cara do festival (vocês ainda lembram que o FICC deste ano homenageou os ingleses, né?): a English Pale Ale estilo ESB – Extra Special Bitter – autêntica bitter inspirada na escola inglesa de cervejas, que puxa notas de biscoito do malte em meio ao aroma lupulado do líquido de cor escura e corpo de média densidade.

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Enquanto ele contava sobre os outros estilos, escolhi o meu pra degustar. Uma Raspberry Porter que respeita a tradição inglesa, mas inova com o toque tupiniquim ao usar frutas. Decisão do Lucas G. que resultou em uma cerveja escura e forte, ao mesmo tempo seca com o azedinho da framboesa.

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Um bom café da manhã tem que ter… CERVEJA

Não, não é um café da manhã depois de meio dia. É de manhã mesmo. Até já ouviu falar nisso, mas acha esquisito? Pois saiba que é uma prática muito comum na Alemanha e na Bélgica e que já tem alguns bares curtindo a onda em terras tupiniquins. Inclusive teve uma matéria publicitária do G1 desse mês com o sommelier José Raimundo Padilha dando algumas dicas de harmonização no café da manhã. Não sou muito fã do lance de misturar uma Weiss com suco de laranja, nem da ideia da Stout com sorvete, mas tem gosto pra todo mundo.

Como é na Alemanha

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Não, na Alemanha o café da manhã não é só com cerveja, tem café e chá também. Mas o Tradicional Bávaro se chama Weißwurst FrühstückComo essa refeição é composta de salsicha de vitela com bacon e um pão chamado brezen, rola uma harmonização com cerveja de trigo.

Dá pra fazer no Brasil?

Quem gosta de cerveja a toda hora pode harmonizar com café da manhã no Brasil tranquilamente. O próprio Padilha apresenta opções para o bolo de fubá (bem tradicional em Minas) e indica weiss ou fruit beer para acompanhar frutas. Aliás, em alguns lugares o café da manhã tradicional deveria até ser degustado com cerveja mesmo, porque são fortes, principalmente em alguns locais do nordeste, por exemplo.

Café com sustança

Em alguns lugares do nordeste do Brasil o costume é quase que almoçar pela manhã. Receitas salgadas com leite de cabra e carne de bode são bem comuns e possuem sabor característico bem fortes. Pensaria nesse caso em harmonizar com uma IPA ou uma barley wine inglesa, tradicional, bem maltada.

Mas na maioria dos cafés que experimentei nas viagens ao Nordeste tive contato com queijo coalho temperado com ervas de inúmeras características aromáticas. Pensaria em combinar esses sabores com uma witbier, em respeito ao tempero usado nesses queijos, porque são cervejas temperadas, em geral com coentro (que trazem refrescância) casca de laranja, complexas pelo uso do trigo não maltado ou aveia.

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No caso de receitas a base de milho, como cuscuz, ou de receitas com tapioca, quando suaves, poderiam perfeitamente ser apresentados com uma pilsen. Mas também existem receitas de tapioca um pouco pesadas. É o caso da tapioca de carne seca. Acompanhada com mandioca cozida (chamada por lá de macaxeira) e manteiga de garrafa. Acredito que o ideal seria degustar com uma American Pale Ale bem lupulada, com amargor e aroma cítrico.

Em Minas Gerais

Não se pode pensar em café da manhã mineiro sem queijo. Amamos queijo. E queijo pede café. Alguns estilos de cerveja trazem em suas características mais marcantes os tons de café, tons de torrado, chocolate amargo. São leves, secas e fáceis de beber. Começaria o dia extremamente feliz com um queijo meia cura e uma dry stout.

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Ah, e um pão de queijo, é claro. Como é mais cremoso a harmonização que prefiro é com uma oatmeal stout, das tradicionais Stout com aveia. São aveludadas e saborosas e combinam perfeitamente com um pãozinho de queijo saindo do forno…

Café colonial

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O tradicional café do sul do país tem de tudo. Seria até difícil dizer todas as possibilidades de harmonização. Mas a presença de embutidos é costume, principalmente os defumados. Uma cerva que ficaria ótima seria uma rauchbier.  Combina inclusive com ovos e bacon, para quem é adepto de um café reforçado.

FICC: A força do interior (ou beervangelização) PARTE 3

Com apenas 4 anos de idade, a serem completados no final de 2016, a Fürst, localizada em Formiga, ajuda a engrossar o caldo da produção cervejeira do interior. Com apenas 8 mil litros produzidos por mês, a cervejaria já ostenta prêmios importantes no cenário nacional, como a medalha de prata no Festival Brasileiro da Cerveja de Blumenal, na categoria Irish Red, e a medalha de ouro, na categoria Marzën.

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É cerveja feita com muito carinho. Como o próprio cervejeiro da Fürst, Paulo Leite, costuma dizer, “nossa missão é beervangelizar todo mundo, levando a cultura cervejeira por todos os cantos de Minas”.

Para aquecer a alma

Durante o Festival Internacional de Cerveja e Cultural – FICC, de BH, experimentamos algumas das criações dessa galera formiguense, todas muito boas, mas sem dúvida a Wee Heavy chamou bastante atenção. Foi a sensação do inverno que está chegando ao fim. Essa versão do estilo Smoked Scoth Ale é uma cerveja mais maltada, com notas de caramelo e aroma defumado. O final do gole tem um pouco mais de álcool, já que seu teor é de 8%. Definitivamente uma cerveja pra aquecer o corpo do bebedor.

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Assim como os demais rótulos da Fürst, a Wee Heavy é bem equilibrada, sem radicalismos. Alto drinkability, pra beber naturalmente e em volumes maiores, mas mantendo respeito às tradições do estilo.
Um viva pra esses caras! O interior de Minas é fenomenal.