FICC: a pegada drinkability PARTE 4

Sempre presente nos festivais mineiros, a cervejaria Capapreta de Nova Lima tem uma pegada bem interessante que é trabalhar o sabor de suas cervejas para o público brasileiro. Preocupação do Lucas Godinho, dono da cervejaria. Quem me contou desses pormenores foi o outro Lucas (o de Magalhães, o homebrewer da Capapreta).

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O Lucas M. apresentou a breja que seria a cara do festival (vocês ainda lembram que o FICC deste ano homenageou os ingleses, né?): a English Pale Ale estilo ESB – Extra Special Bitter – autêntica bitter inspirada na escola inglesa de cervejas, que puxa notas de biscoito do malte em meio ao aroma lupulado do líquido de cor escura e corpo de média densidade.

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Enquanto ele contava sobre os outros estilos, escolhi o meu pra degustar. Uma Raspberry Porter que respeita a tradição inglesa, mas inova com o toque tupiniquim ao usar frutas. Decisão do Lucas G. que resultou em uma cerveja escura e forte, ao mesmo tempo seca com o azedinho da framboesa.

raio-x cachorro

 

Um bom café da manhã tem que ter… CERVEJA

Não, não é um café da manhã depois de meio dia. É de manhã mesmo. Até já ouviu falar nisso, mas acha esquisito? Pois saiba que é uma prática muito comum na Alemanha e na Bélgica e que já tem alguns bares curtindo a onda em terras tupiniquins. Inclusive teve uma matéria publicitária do G1 desse mês com o sommelier José Raimundo Padilha dando algumas dicas de harmonização no café da manhã. Não sou muito fã do lance de misturar uma Weiss com suco de laranja, nem da ideia da Stout com sorvete, mas tem gosto pra todo mundo.

Como é na Alemanha

Weißwurstfrühstück

Não, na Alemanha o café da manhã não é só com cerveja, tem café e chá também. Mas o Tradicional Bávaro se chama Weißwurst FrühstückComo essa refeição é composta de salsicha de vitela com bacon e um pão chamado brezen, rola uma harmonização com cerveja de trigo.

Dá pra fazer no Brasil?

Quem gosta de cerveja a toda hora pode harmonizar com café da manhã no Brasil tranquilamente. O próprio Padilha apresenta opções para o bolo de fubá (bem tradicional em Minas) e indica weiss ou fruit beer para acompanhar frutas. Aliás, em alguns lugares o café da manhã tradicional deveria até ser degustado com cerveja mesmo, porque são fortes, principalmente em alguns locais do nordeste, por exemplo.

Café com sustança

Em alguns lugares do nordeste do Brasil o costume é quase que almoçar pela manhã. Receitas salgadas com leite de cabra e carne de bode são bem comuns e possuem sabor característico bem fortes. Pensaria nesse caso em harmonizar com uma IPA ou uma barley wine inglesa, tradicional, bem maltada.

Mas na maioria dos cafés que experimentei nas viagens ao Nordeste tive contato com queijo coalho temperado com ervas de inúmeras características aromáticas. Pensaria em combinar esses sabores com uma witbier, em respeito ao tempero usado nesses queijos, porque são cervejas temperadas, em geral com coentro (que trazem refrescância) casca de laranja, complexas pelo uso do trigo não maltado ou aveia.

tapiocacomcarneseca

No caso de receitas a base de milho, como cuscuz, ou de receitas com tapioca, quando suaves, poderiam perfeitamente ser apresentados com uma pilsen. Mas também existem receitas de tapioca um pouco pesadas. É o caso da tapioca de carne seca. Acompanhada com mandioca cozida (chamada por lá de macaxeira) e manteiga de garrafa. Acredito que o ideal seria degustar com uma American Pale Ale bem lupulada, com amargor e aroma cítrico.

Em Minas Gerais

Não se pode pensar em café da manhã mineiro sem queijo. Amamos queijo. E queijo pede café. Alguns estilos de cerveja trazem em suas características mais marcantes os tons de café, tons de torrado, chocolate amargo. São leves, secas e fáceis de beber. Começaria o dia extremamente feliz com um queijo meia cura e uma dry stout.

paodequeijo

Ah, e um pão de queijo, é claro. Como é mais cremoso a harmonização que prefiro é com uma oatmeal stout, das tradicionais Stout com aveia. São aveludadas e saborosas e combinam perfeitamente com um pãozinho de queijo saindo do forno…

Café colonial

cafecolonial

O tradicional café do sul do país tem de tudo. Seria até difícil dizer todas as possibilidades de harmonização. Mas a presença de embutidos é costume, principalmente os defumados. Uma cerva que ficaria ótima seria uma rauchbier.  Combina inclusive com ovos e bacon, para quem é adepto de um café reforçado.

FICC: A força do interior (ou beervangelização) PARTE 3

Com apenas 4 anos de idade, a serem completados no final de 2016, a Fürst, localizada em Formiga, ajuda a engrossar o caldo da produção cervejeira do interior. Com apenas 8 mil litros produzidos por mês, a cervejaria já ostenta prêmios importantes no cenário nacional, como a medalha de prata no Festival Brasileiro da Cerveja de Blumenal, na categoria Irish Red, e a medalha de ouro, na categoria Marzën.

cervejas furst

É cerveja feita com muito carinho. Como o próprio cervejeiro da Fürst, Paulo Leite, costuma dizer, “nossa missão é beervangelizar todo mundo, levando a cultura cervejeira por todos os cantos de Minas”.

Para aquecer a alma

Durante o Festival Internacional de Cerveja e Cultural – FICC, de BH, experimentamos algumas das criações dessa galera formiguense, todas muito boas, mas sem dúvida a Wee Heavy chamou bastante atenção. Foi a sensação do inverno que está chegando ao fim. Essa versão do estilo Smoked Scoth Ale é uma cerveja mais maltada, com notas de caramelo e aroma defumado. O final do gole tem um pouco mais de álcool, já que seu teor é de 8%. Definitivamente uma cerveja pra aquecer o corpo do bebedor.

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Assim como os demais rótulos da Fürst, a Wee Heavy é bem equilibrada, sem radicalismos. Alto drinkability, pra beber naturalmente e em volumes maiores, mas mantendo respeito às tradições do estilo.
Um viva pra esses caras! O interior de Minas é fenomenal.

FICC: Uma brown ale digna de um pub inglês… PARTE 2

Como prometido, vamos agora falar da parte boa do festival, ou seja, cerveja boa. O grande mérito do 2º Festival Internacional de Cerveja e Cultura, que rolou no último fim de semana em BH, foi reunir algumas das melhores cervejarias de Minas Gerais – estado que já é conhecido como a “Bélgica Brasileira” devido à grande variedade de estilos produzidos aqui.

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A Taberna do Vale, localizada em Nova Lima, ainda produz uma excelente IPA, que estava presente e fez grande sucesso, além de uma Dry Stout, que é uma referência, em Minas, desse estilo tão consagrado na Grã-Bretanha, em especial na Irlanda.

Mas o grande destaque sem dúvida foi a Brown Ale deles, uma cerveja que me encanta. Muito bem equilibrada, malte super bem aplicado e muito drinkability, fácil de beber. Tenho vontade de bebê-la o dia inteiro. Ela já é um clássico por aqui e está muito próxima do que você tomaria num pub inglês.

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E isso tudo sem falar do estilão da galera. Além do estande tradicional, os caras levaram pro FICC a Beer Caravan da Taberna do Vale. Isso mesmo, aquela banheirona classuda anos 70 com torneiras instaladas na carroceria pra servir cerveja na pressão. Um espetáculo!

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Figuras e brejas: Smoked Strong Scotch Ale Fürst

Essa figura do meu lado (é, tô com máscara de fürst guerreiro) é o cervejeiro Paulo, meu velho amigo desde os tempos de cerveja caseira.

No estande do Festival Internacional de Cerveja e Cultura desse ano, a Fürst apresentou as suas brejas, e dentre elas uma com estilo em que sou suspeito de falar (isso porque é um dos meus prediletos): “Smoked Strong Scoth Ale”.

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Essa breja não é forte só no nome: o ABV dela chega a 8%. A combinação de maltes com pegada defumada é bem interessante e faz da Wallis (nome comercial curtinho) ser bem harmonizada com queijos maturados e carnes defumadas e fortes.

Uma pena ser sazonal desse inverno…  Ah, você vai poder saber mais sobre a Fürst e outras cervejarias presentes no FICC no Por Falar em Cerveja… #002.

Imagem da Wallis disponível no site da Fürst

FICC: a festa da cerveja mineira (ou da música gringa?) PARTE 1

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O cenário é sensacional: Parque das Mangabeiras, ao pé da Serra do Curral, patrimônio histórico e ambiental e um dos mais famosos cartões postais de Beagá. Foi lá que aconteceu, neste fim de semana (6 e 7) a segunda edição do Festival Internacional de Cerveja e Cultura. O megaevento teve a presença de 30 cervejarias mineiras, somando mais de 200 rótulos, e tinha o Reino Unido como inspiração.

Tinha cerveja boa? Tinha cerveja boa, várias, algumas incríveis. A organização teve o mérito de atrair os principais cervejeiros do estado que foram pra lá não só vender suas criações, mas também buscar interação entre profissionais da área e, principalmente, com o cliente mais interessado em conhecer mais sobre o vasto universo da bebida.

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Com toda minha independência de visitante/caçador de cerveja, podemos rasgar o verbo sem temer: a brisa gélida que batia no paredão da serra e recirculava entre os estandes, carregava um ar de decepção. Tá certo, o evento foi bem produzido, tinha playground infantil, tatuagem instantânea, praça de alimentação variada, carrinho de churros, banheiro químico a perder de vista, dois palcos de música, trocentas bandas e sei lá mais o que. Mas será que era isso mesmo?

A sensação que ficou, expressada por todos os produtores com quem conversei, foi de que o rock inglês mediano que tocava no palco roubou da cerveja a condição de estrela do fim de semana. Mais parecia um festival de música britânica com alguns pints diferentes pra acompanhar.

Um dos palcos foi montado bem no meio dos estandes e o som alto pra cacete praticamente impedia o cervejeiro de falar sobre suas criações com os clientes – coisa que a gente adora. Sem citar que o esperado concurso de homebrewer que estava na programação sequer aconteceu no sábado.

E se eu tava achando super razoável o ingresso de 30 conto, fui sumariamente desiludido pelo caixa ambulante logo na entrada, quando tentei carregar o cartão de consumo com “apenas” R$ 50. “Cara, põe logo uns cem, isso aí não vai durar uma hora”, debochou ele.

De fato, as brejas mais baratas, aquelas que você nem tá muito interessado em conhecer, custavam R$ 10 o copo de 300 ml. Uma boa porter ou uma IPA de responsa não saíam por menos de 15 mangos. Voltei no caixa mais umas duas vezes pra recarregar, isso porque os vários amigos cervejeiros não hesitavam em oferecer suas melhores criações como cortesia para um colega – talvez já constrangidos pelo preço que eram “obrigados” a cobrar. Não tinham muita saída, já que para ter direito a um daqueles cercadinhos minúsculos, tinham que desembolsar R$ 1.500 mais inacreditáveis 28% de todo o faturamento.

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Tenho pra mim que um festival de cerveja artesanal não deveria ter o lucro como objetivo maior, nem tampouco deveria deixar sua atração principal na sombra. Ok, os custos de um evento assim são altos. Então por que tantas bandas, pra quê tanto sideshow?
Cerveja artesanal, antes de mais nada, deve ser democrática, o mais acessível possível. Porque essa é nossa guerra, é contra as grandes corporações e sua política predadora. Por isso, todos devem poder beber do que a gente faz, porque a diferença grita.

E as cervejas? Claro, depois desse desabafo, vamos falar do que interessa. O próximo post será sobre elas, as melhores que bebemos lá.

Workshop Agrária Malte 2016

Para quem não sabe a Agrária Malte é a maior maltaria comercial do Brasil e a 17ª maior no mundo. Fica no distrito de Entre Rios (Guarapuava/Paraná/Brasil) e produz o malte para as nossas brejas. Todo ano a cooperativa organiza um workshop para atualização dos cervejeiros, com visita às instalações e cursos técnicos com fornecedores e sobre pesquisas e novas descobertas.

A Gigante

Agrária Malte

Eis a Agrária Malte! Aquela estrutura ali na direita são os silos de malte. Só alguns andares…

Agora saca só o tamanho da “panelinha” usada para o cozimento do malte:

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Aprendendo novas possibilidades

Sabe aquela história do copo meio vazio ou meio cheio? O meu está sempre por encher (literalmente)! E esse grupo entornou várias rodadas de conhecimento valioso… Excelente!

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Aprendi muito sobre leveduras e novas técnicas com os palestrantes.

palestra agrária

Nosso guia da Agrária Malte apresentou as instalações e como todo o processo é feito. Tudo com muito cuidado pela preciosidade da nossa matéria-prima!

visita agrária malte

Entre Rios

Além dos saberes trocados na alquimia cervejeira, o encontro no Paraná permitiu conhecer um pouco mais da história dessa colônia germânica sulista. Antes do distrito de Entre Rios, a região era formada por fazendas de criação de gado extensivo, pouco lucrativo. A partir de 1951, após o fim da Segunda Guerra, foram feitos acordos com países europeus e para cá vieram refugiados, como o simpático Sr. Chico, que chegou da Áustria. Claro que com muita dificuldade de adaptação, mas fortalecidos pelo espírito de luta, resistência e coletividade, Entre Rios prosperou e colocou Guarapuava no mapa-múndi da cerveja. A cooperativa Agrária Maltes é a prova disso.

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Ainda tem espaço no meu copo

Depois da experiência da viagem e várias conversas com esse pessoal bacana meu copo ficou meio vazio. Precisando de um novo desafio… E desafio pra todo mestre cervejeiro é sempre uma nova breja! E aí Brüder, topa o desafio?

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