Cultura cervejeira: um sonho que se apaga

Eu me recordo que, há cerca de 10 anos, havia uma luta na comunidade cervejeira para popularizar outros estilos produzidos para além do mais consumido – senão único – pela população Brasileira: pilsen. Um trabalho forte onde cervejarias buscariam desenvolver o mercado local e posteriormente o mercado nacional para vender suas cervejas. Era um discurso em que todos pensavam juntos, a gente tinha um sonho.
Para potencializar essa recente identificação com a cultura cervejeira no Brasil, precisava-se de um exército de pessoas lutando por essa filosofia, cervejarias produzindo regionalmente cada qual um estilo diferente, trocando figurinhas e experiências, apoiando umas as outras, e todos os apaixonados pela cerveja poderiam experimentar, em cada região, um tipo de cerveja novo e vários nas viagens pelo Brasil afora. Assim cada região fortaleceria a sua cerveja ao conhecer e consumir o estilo regional e quem passasse por ali poderia ter a experiência única local. Identidades seriam formadas. Tradições surgiriam com o tempo.
Mas em algum momento dessa história, esses objetivos se perderam e o que aconteceu foi o surgimento de grupos que trabalhavam “com” cerveja com o único fim de transformar líquido em prata.

cerveja-gourmet
Munidos de considerável poder de influência, esses grupos passam a ditar tendências para a cultura cervejeira e  alimentam essa cultura somente como negócio. Assim, desvalorizam estilos populares tradicionais e começam a produzir, guiados por especialistas – críticos e sommeliers -, tipos baseados unicamente nessas tendências.

Você já experimentou aquela?

O mercado mudou muito nesse tempo. Surgiram diversas cervejarias artesanais – muitas delas ciganas – que orientadas por essas tendências “gourmetizadas”, esqueceram do fator cultura cervejeira. Criou-se um mercado que não existe, fictício, e talvez seja o motivo pelo qual estamos nos deparando com inúmeras fábricas pequenas quebrando, fechando ou enrolando seus fornecedores.
Diante da dificuldade, essas cervejarias sobretaxam seu produto porque não existe mercado formado para esses estilos da moda – mesmo quando você rola sua timeline e só vê fotos cuidadosamente trabalhadas para avaliar a “tal” breja do momento – porque não se popularizaram a ponto de se tornarem baratos.
A cerveja vira modinha, os caras das cervejarias começam a produzi-las, gastando seu capital nessa produção que muitas vezes não tem saída regionalmente. E às vezes esquecem que não têm logística preparada, sei lá, dentro das suas possibilidades, pra comercializar pra fora. Nem mercado pra isso. Aí a modinha vai embora, entra outra e os caras nem pagaram a conta da anterior.

engarrafando
Para se ter ideia, existem cervejarias desesperadas em produzir novos rótulos mensalmente para tentar emplacar algum. São estilos tão exóticos e pouco conhecidos que não vingam, não ficam na cabeça dos consumidores. É a realidade que nós temos visto nos últimos anos: cervejas que somem com 2 anos de comercialização no Brasil.
Algumas tentam vender para supermercados e não conseguem, perdem seu espaço, afinal o mercado cervejeiro regional não está estabelecido. Aí as grandes cervejarias entram com o produto barato, comprando outras microcervejarias, e conquistam o espaço porque fazem estilos clássicos que agradam a população, e não as tendências criadas por causa de críticos e especialistas.

Desunião

Esse exército de críticos desenvolveu na verdade um fanatismo cervejeiro que gerou tribos, gangues diferentes. Microcervejarias brigando e criticando métodos e não somando experiências. O radicalismo fez de estilos pouco populares produzidos serem odiados. Agora só aparece a briga pelo status de quem faz mais estilos exóticos, e não há aquela filosofia de regionalização da produção, que fortaleceria a cerveja local. O mercado parou de favorecer a sonhada cultura cervejeira que daria espaço pra todas as cervejarias.

E a cultura cervejeira acabou virando sinônimo de consumir o estilo da moda, entrar pro grupo que ama a IPA, brigar com quem bebe porter e não gosta da IPA, criar rixa com quem tá lá quieto degustando sua pilsen no boteco, gastar horrores na lata estilosa do momento e, é claro, registrar nas redes sociais com #brewlife.

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