O puromaltismo, o milho e todas as outras coisas

Momentos de mudança geram estranheza, rejeição e, principalmente, oportunidade de tirar proveito da situação. Desde o seu surgimento há pouco mais de uma década, a revolução cervejeira no Brasil, protagonizada pelos desbravadores das microcervejarias, suscitou certas discussões sobre a forma de se produzir a bebida. As diferenças de processos, o uso da tecnologia, entre vários outros tópicos pra lá de escabrosos já circularam nos blogs e mesas de botecos e varandas gourmet da vida. Mas um assunto especial em nenhum momento teve ameaçada a sua posição de protagonista das polêmicas. Reina absoluto no topo do ranking dos debates cervejorreicos, o campeão de todas as discórdias: o famigerado cereal não-maltado – vulgarmente conhecido como milho.
Nos últimos dias vimos a supermegamultinacional fazendo propaganda sobre os benefícios do milho na breja nossa de cada dia. Aí o pau come solto. Ok, a gente até entende que cozinhar milho barateia a parada, deixa o produto mais acessível e todo mundo pode beber um pouco mais. Mas botar o tira-gosto preferido da Galinha Pintadinha em cima de um pedestal é demais, né?!

cerveja-e-milho

O fundamento mais evocado nessas grandes cruzadas “córnicas” é a tal Lei da Pureza Alemã, que coincidentemente acaba de completar 500 anos. Mas será mesmo que as diretrizes europeias, instituídas há meio milênio, realmente serviriam de argumento para a resistência ao uso do milho? Não é bem isso. Vamos aditivar a discussão que é um pouco mais turva do que se pensa.
Minha aceitação ao uso da matéria prima da pipoca na produção de minha bebida preferida tende a zero. Mas não sou radical. Acredito sim que muitos dos deliciosos porres que já tomei na vida só foram possíveis porque cerveja de milho é mais barata e pude comprar logo uma caixa inteira só pra mim sem doer muito no bolso.

As alternativas são várias

Contudo, a desculpa esfarrapada de que milho – ou arroz – podem ser alternativas para diversificação dos ingredientes usados na cerveja, com vistas a criar receitas diferentes, é mais uma daquelas verdades fabricadas, movidas por interesses suspeitosos e empurradas goela abaixo do consumidor. Perceba a contradição: vamos diversificar os ingredientes, mas queremos usar apenas um ou dois.

milho na cerveja
E o mais irritante é que pra justificar suas posições questionáveis, um executivo da Ambev saiu dizendo que não devemos nos limitar à Lei de Pureza Alemã, que isso é algo ultrapassado. Mas hein? Os verdadeiros entendidos do assunto e formadores de opinião não são assim apegados a essa lei. Deu pra entender a falcatrua?
Os novos cervejeiros brasileiros não se pautam pelo puromaltismo. Tem muita cerveja que mistura um monte de ingredientes e oferecem um sabor mais rico, elaborado, exótico. É assim que se faz uma cerveja diferente, ainda que ela não tenha só malte de cevada. A maioria das cervejarias artesanais nem liga pra esse “título de nobreza”. Preste atenção aos rótulos e veja que são as grandes marcas que de fato usam essa característica como recurso de marketing.
Não se engane, produtor que tem suas raízes na produção artesanal não é bitolado na legislação medieval alemã. O cervejeiro contemporâneo está muito além disso. Tem muito mais a oferecer.
Mas não me venha com esse papo de milho pra fazer cerveja boa. Se quer diversificar, temos vastas experiências de cervejeiros que metem de tudo nas suas receitas. Além da cevada tem trigo, tem frutas, ervas, café e muito mais. Nesse caso não temos cerveja puro malte, já que há outros ingredientes além da cevada, mas eles servem pra enriquecer o paladar ao invés de simplificá-lo. Muitas vezes custa mais caro usar esses ingredientes diferentes, mas é tudo por uma boa causa. Uma causa verdadeira.

Bom pra quem?

A informação manipulada tenta te convencer de que cereal não-maltado pode ser bom. Bom pra quem? Já parou pra pensar que boa parte do milho usado na sua cerveja é transgênico? Sabe o que isso implica? Essa é uma outra discussão ainda mais cabeluda e que extrapola o mundo cervejeiro, mas não é coisa boa.
Por fim, se tanta gente ainda prefere uma cerveja leve, de pouco sabor – que é a principal característica da bebida de milho -, provavelmente é porque ainda não experimentou algo realmente diferente. Mas a luta continua, companheiro!

*RodZefer é jornalista, colaborador do Studio Integral e bebedor curioso.

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