Entre lobos e tubarões

Dizem por que o mercado cervejeiro artesanal brasileiro se tornou um negócio milionário. E, em busca do seu quinhão, cervejeiros passaram a cultivar o sonho de trabalhar com sua paixão: fabricar o líquido sagrado. O que não se fala por aí é que este mercado – que tem suas recompensas como qualquer outro nicho – não tem só pequenos trabalhadores dedicados (construtores de colmeias) e pequenas fábricas, mas é uma verdadeira luta por sobrevivência entre lobos e tubarões.
Todos estão ao seu modo tentando emplacar um rótulo e vender sua breja, afinal o mercado é livre e todos tem o direito de explorar. Mas nessa cadeia produtiva outras questões devem ser levadas em conta antes de empreender. E a primeira delas é estar ciente de que realmente você vai começar na base da cadeia alimentar e deve ter muito cuidado para não cair em uma relação desvantajosa que vai custar o seu negócio.

Biologia básica

Sabe aquela relação básica de protocooperação entre o jacaré e o pássaro-palito, em que os dois precisam de ajuda, mas nenhum depende do outro pra sobreviver? Isso não existe nesse mercado. Essa lógica não favorece a indústria, e sim o comércio, os atravessadores. Você depende deles pra escoar sua produção, mas eles não precisam de você. Existem outros zilhões de possibilidades, e o custo vai ganhar do benefício.
Muitas fábricas estão “morrendo” financeiramente porque, quando surgiram, aplicavam um alto preço para venda, com margem elevada, e não conseguiram se consolidar no mercado. Hoje elas possuem capacidade ociosa e como resultado precisaram estabelecer uma relação de dependência com produtores ciganos. Um mutualismo ilusório que até seria positivo não fosse o fato de serem obrigados a fazer isso por sobrevivência. Ninguém faz fábrica para alugar. Estão alugando porque não conseguem vender a própria cerveja e isso pouco tem a ver com a existência ou não de público consumidor para a cerveja local.
Essa expansão de produtores abre uma gama de discussões a respeito da qualidade da cerveja artesanal e como ela se apresenta para o consumidor. Alguns críticos chegam a questionar se toda essa liberdade é positiva ou se isso não seria resultado de uma superpopulação desordenada que precisa ser “comida” para estabelecer um mínimo de qualidade. Sinceramente, nos dois casos a boca do lobo já está aberta.

O lobo de Yellowstone

Um tempo atrás, para justificar a “Ambeverização” do mercado cervejeiro – em nível mundial, diga-se de passagem – alguns citaram o caso do Parque de Yellowstone, nos EUA, como exemplo de que a inserção de um predador num ambiente “doente” pelo crescimento desordenado da população de uma espécie foi o que regenerou e salvou o local.
Inegável que na natureza os predadores são peças chave para o equilíbrio ecológico, mas na ordem natural dos negócios, e especialmente no mundo cervejeiro, o predador da comparação foi equivocado. A única espécie adequada para o topo da cadeia alimentar que agrega outras “espécies” e as utiliza para disputar água, levedura, lúpulo e malte nós sabemos bem qual é… e já não estamos numa relação de predatismo entre lobos e cervos…

Negociando com tubarões – a versão brew

Encontrar um investidor e fazer um planejamento sério da sua cervejaria e de como escoar sua produção, corrigindo erros e potencializando pontos fortes da sua breja, é uma realidade que você precisará aceitar se quiser nadar nesse mar. Liga lá no Shark Tank e prepara a barbatana que vem muita onda por aí!

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