Essa cerveja não é pra você

O lançamento que “aumentou a família” de uma linha de cervejas recentemente causou alvoroço no meio cervejeiro. Trata-se de uma cerveja criada, ou melhor dizendo, formulada e concebida para um público específico. E tem nome característico e tudo mais. Nome de flor e cor de características simbólicas bem determinadas. Para quem está por dentro da discussão nem preciso falar mais nada… para quem tá por fora, basta dizer que a cerveja é considerada sexista.

O lançamento estabeleceu divisões. E muito provavelmente, quem se sentiu ofendido (e não tiro a razão, porque a discussão é séria) com a criação do produto nem mesmo vai colocar na boca. Mas, sinceramente, acho até que não beberia mesmo que a discussão a respeito do nome não existisse, simplesmente porque essa cerveja não foi criada “pra você”.

A criação de um produto: senso comum ou bom senso?

Nenhum dos dois. O que vale são os números. Pesquisa pura de marketing. Não existe bom senso, existe um pseudo senso comum aí. Tudo foi contabilizado e estabelecido. Ah, e com certeza virá com uma sobretaxa: a rosa. Não é nada pessoal, acredite. Mas é que por incrível que pareça, as pessoas compram os produtos pela embalagem. Dizer que a do Papai Urso é a breja Forte, a da Mamãe Urso é Puro Malte, do Bebê Urso é Leve e da Cachinhos de Ouro é a Vermelha de Mulherzinha é estratégico. Está em todos os produtos, dividido por faixa etária e começa bem cedo, pode acreditar…

Você já parou pra pensar porque comprou o carrinho lilás e rosa para sua filha ao invés do vermelho e azul? E porque o seu filho coleciona carrinhos ao invés de bonecas? A discussão vem muito antes, é muito complexa e usa um senso comum que existe e que é moldado desde muito cedo. Tem muito menos a ver com o paladar do que você pensa ter. Acredito que não tenha a ver com preferências também, apesar de claramente sugerir que mulheres preferem cervejas leves – o que absolutamente não é verdade, afinal nosso paladar é formado pelas nossas experiências gustativas. Penso que a jogada de marketing é baseada em inclusão por incrível que pareça! (gargalhadas)

Se desde pequena a criança é acostumada a ter produtos com cores, fragrâncias, sabores e definições específicas, porque não aproveitar essa segmentação e direcionar uma cerveja com o nome estampado no rótulo! MULHER. É da Mamãe tá. Já parou pra pensar que essa cerveja não é pra você? É para ELA. Não ela… ELA. Sacou? Você que tem respeito pelas pessoas, que percebe as diferenças, limites e entrelinhas do pensamento sexista não é o público alvo desta cerveja. Mas a outra parte do público é. A parte que não curte vikings, ogros, caveiras e companhia, que foi criada num ambiente machista por natureza e que o paladar desde criança não foi moldado para saborear todas as coisas (inclusive o paladar psicológico).

Se realmente você quer dar um basta no sexismo cervejeiro (e por favor, na prática sexista em si), comece a discussão mais cedo. Em outras esferas. Em outros produtos. Frequente outro grupo social e faça a diferença lá. Os caras do marketing não estão nem ligando pra você como consumidor dessa cerveja, mas com certeza você faz diferença nos números de outros produtos…

 

 

 

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