A guerra gelada

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As microcervejarias brasileiras são pequenos anões que nasceram numa selva dominada por dois ou três gigantes capitalistas. Do alto de seus arranha-céus, eles observavam o movimento desses pequenos grupos, em trabalho de formiguinha, carregando pesos maiores que suas costas. Até que um dia, o generoso grandalhão resolve estender sua mão direita e se oferece para fazer todo o trabalho duro. E ainda leva os anões pra morar na cobertura. Em troca, pede apenas as suas almas.

Este roteiro tem se repetido pelo Brasil afora: Minas Gerais, São Paulo, Santa Catarina. Megacorporações arrematando aquelas que poderiam, se unidas, se tornar concorrentes consideráveis num futuro próximo.

O assunto explodiu mesmo quando a AmBev, que já havia comprado a mineira Wäls, incorporou também a paulista Colorado, sinalizando que a rotina de fusões deve continuar.

CONTRACULTURA

A revolução do mercado cervejeiro no Brasil tomou força nos últimos 10 anos.  Acostumados que éramos a pedir sempre a mais gelada, ou a rivalizar pateticamente entre os grupos de brameiros ou bebedores de Skol (até aparecer aquele que jurava beber Antártica Sub Zero numa boa), aos poucos aprendemos que pode existir um universo infinito de sabor dentro de um saco de malte. E mais que isso, muito além do malte, descobrimos que dá pra por quase tudo dentro da panela pra cozinhar junto – claro depois de muita pesquisa pra entender que ingredientes combinar.

Assim, as chamadas artesanais assumiram uma posição mais nobre nas wishlists dos consumidores, que se dispunham a pagar 3 ou 4 vezes mais por uma experiência mais rica. O fenômeno recente, visto como uma corrente de contracultura, criou um contingente de admiradores altamente passionais e que logo assumiram posições de defesa sobre o novo segmento de mercado.

VIRA CASACA

E como lidar, portanto, com a entrada das gigantes nesse nicho, que como em toda e qualquer grande investida capitalista, acaba trazendo consequências devastadoras sobre os pequenos? O domínio sobre as prateleiras de supermercados; os preços muito mais baixos e incompatíveis com a realidade das microcervejarias; os estandes gigantescos e luxuosos nos festivais.

Por mais de uma vez presenciamos estupefatos à mudança repentina no discurso de donos de micros vendidas, antes militantes radicais da causa da independência e agora trafegando perigosamente na contramão de seus antigos interesses.

E não me venham com essa chorumela de que com a entrada das grandes nesse mercado haverá uma democratização das cervejas artesanais, já que os novos investimentos vão possibilitar preços mais em conta e maior distribuição, que é tudo em prol de um bem maior. Lembra da justificativa dos “benfeitores” norte-americanos pra invadir o Iraque? Alguém achou armas de destruição em massa por aí? Não somos trouxas assim né?!

ETERNOS ROMÂNTICOS

Há quem diga que negócio é negócio, que aqui não valem romantismos e que as regras que regem o mercado darão conta de trazer equilíbrio a todas as coisas. Livre mercado my ass! Liberdade é a mais pura ilusão vendida pela economia de mercado, a começar pela legislação cheia de equívocos, sempre voltada a interesses escusos e que mantém exilado, numa galáxia muito muito distante, o cenário ideal de competitividade e condições leais entre fabricantes de bebidas.

EM BLUMENAU, SÓ AS PEQUENAS

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A última manifestação de que sim, existe uma guerra, e vamos perdê-la se não agirmos rápido, foi a decisão da organização do Festival Brasileiro de Cerveja de Blumenau de proibir a entrada de cervejarias artesanais adquiridas por grandes indústrias na edição de 2017. Comemorado por uns, criticada por outros, o decreto não deixa de refletir o clima de apreensão que anuviou o céu das pequenas fábricas.

Na invasão americana ao Iraque, em 2003, Saddam Hussein arremessava seus Scud contra o Kwait. Mais pareciam traques infantis. Mas o ditador, o tirano, o Satã em pessoa como ficou conhecido, lutou até o fim pelo que acreditava.

Pode-se interpretar assim as ações perpetradas pelos representantes das microcervejarias: um estilingue contra um blindado. Mas sobretudo, apesar da força desproporcional, é importante deixar claro que estamos aqui e não gostamos do que vemos.

Favor não tentar amenizar a gravidade do problema. É preciso sim falar do comportamento das grandes corporações, é necessário que as discussões tomem conta das redes sociais e que todos tenham voz.

O que vemos por aí são figuras notórias no universo das cervejas especiais, formadores de opinião relativizando e suavizando o contexto atroz. E onde estão os super-sommeliers pra nos defender, esses apontadores de dedo que apareceram pra criticar tudo e todas, mas que não hesitam em posar pra foto com uma tacinha de cerveja das grandes marcas?

O saldo do conflito no Oriente Médio foram centenas de milhares de mortos, civis em sua maioria. Já o argumento de araque para a invasão americana, a tal presença de armas de destruição em massa em posse de Saddam, nunca, nunca se confirmou. Mas sim, eles chegaram onde queriam.

 

 

 

 

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